quinta-feira, 27 de agosto de 2026

como eu abandonei algo tão valioso para quem eu sou? como eu pude calar a minha voz? deixar meus dedos definharem e enrijecerem? como fui capaz de arrancar minhas cordas vocais e enterrá-las no fundo daquele buraco negro? como pude cavar, cavar e cavar até destruir toda e qualquer raíz, base, aterramento que me sustentava? esse é o efeito do parasita. o pior parasita possível que contamina a alma e o espírito, faz casa na lógica da cabeça e dança no compasso do coração do hospedeiro. quando você está dançando rumo a sua cova, seus pés te encorajam a soterrar sua roupa, seus anéis, seu corpo, sua pele, seus poros, seu esqueleto, suas entranhas, tudo aquilo que um dia foi você se desfaz, liquifica, evapora - tudo que você foi um dia jaz aqui. decidi construir uma lápide, resgatar a mulher-esqueleto que eu matei de fome e a vesti com meu vestido favorito da ´época, meio emburacado pelas traças meio emburacado pelo coração que se partiu. nos despedimos, dessa vez olho no fundo do olho, e eu pedi perdão. ela finalmente aceitou ter partido, pois não queria ser enterrada como se fosse algo a se esconder, mas algo a se respeitar. agora sim, tudo que eu fui um dia e abandonei, jaz aqui,
LEAVE THIS VERSION YOU ONCE WAS AND NEVER MORE
NEVER MORE?
YES, POE, NEVER MORE.

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